Poupança

Sou eu quem sustenta a família. E agora? Guia financeiro e emocional para mulheres

Sustentas a tua família? Descobre 5 passos práticos para organizar as finanças, criar um fundo de emergência e proteger a tua saúde.

mulher a fazer contas

Quando tudo depende de ti

Ao fim do mês, és tu quem faz as contas à vida. Pode ser porque ganhas mais do que o teu companheiro, porque ele está desempregado ou doente, porque és mãe solteira ou porque cuidas dos teus pais e filhos ao mesmo tempo. Seja qual for o caso, o resultado é o mesmo: o equilíbrio da casa depende de ti. Isso traz orgulho, mas também um peso muito grande para ser carregado por uma só pessoa.

Não estás sozinha

Ser o pilar financeiro da família é cada vez mais comum. Nos Estados Unidos, um estudo do Pew Research Center concluiu que 40% dos agregados com filhos menores tinham uma mãe que era a principal ou única fonte de rendimento, contra 11% em 1960. Esse grupo inclui dois perfis muito diferentes: mães casadas que ganham mais do que o marido e mães solteiras. O rendimento familiar de cada grupo é também muito diferente.

Os dados são americanos e já têm uns anos, mas a tendência de mais mulheres a sustentar a casa verifica-se em muitos países. Em Portugal, o fosso de género no emprego foi de apenas 5,7 pontos percentuais em 2024, abaixo da média europeia, o que mostra como é normal as portuguesas trabalharem a tempo inteiro.

Infelizmente, não temos ainda números de quantas mulheres portuguesas são o pilar financeiro da família, o que não nos permite fazer uma relação direta, mas a verdade é que todas nós conhecemos pelo menos uma outra pessoa nessa situação.

Porque é que o cansaço se acumula

Sustentar a família não é só uma questão de salário, e envolve todo um conjunto de situações. Há três fatores que explicam o cansaço de tantas mulheres.

Ganhamos menos pelo mesmo trabalho. O Barómetro das Diferenças Remuneratórias 2024, com dados de 2022, indica que as mulheres ganham em média menos 13,2% de salário base e menos 16,0% em ganhos totais. Na prática, são cerca de 235 euros por mês. Quando o teu ordenado é o que sustenta a casa, essa diferença sente-se muito.

Continuamos a fazer mais em casa. Segundo uma análise baseada em dados do INE e do Eurostat, as portuguesas trabalham mais uma hora e 13 minutos por dia útil do que os homens, somando trabalho pago e não pago. Além disso, 78% das trabalhadoras fazem pelo menos uma hora diária de trabalho doméstico, contra 19% dos homens. Ser a provedora financeira raramente te livra do resto.

As normas sociais não acompanharam a realidade. O estudo de Bertrand, Kamenica e Pan, publicado no Quarterly Journal of Economics, mostra que existe uma aversão cultural a que a mulher ganhe mais do que o marido. Os autores relacionam-na com menor satisfação conjugal e maior probabilidade de divórcio. Descobriram também que, nos casais em que a mulher ganha mais, ela dedica ainda mais tempo às tarefas domésticas, como se tivesse de compensar. Se te sentes culpada por seres tu a sustentar a casa, essa culpa não é só tua: é um padrão social que a investigação já identificou.

O que podes fazer para reduzir a pressão

Não há fórmula mágica, mas há passos que reduzem a ansiedade. Lembra-te que isto é informação geral e não substitui aconselhamento financeiro ou jurídico personalizado ao teu caso.

1. Conhece os teus números. Faz um mapa simples com tudo o que entra e sai. O portal Todos Contam tem um simulador que ajuda a ver se o orçamento está equilibrado e quanto pesam os encargos financeiros no rendimento. Ver tudo no papel costuma ser menos assustador do que imaginar.

2. Constrói um fundo de emergência. Se és a única fonte de rendimento, uma baixa médica ou um despedimento tem consequências maiores. O Banco de Portugal recomenda, segundo esta notícia, uma reserva de quatro a seis meses de despesas, guardada em produtos com acesso imediato e capital garantido. Aconselha também tratar a poupança como despesa fixa, pondo o dinheiro de lado logo no início do mês. Se o objetivo parecer enorme, começa por um valor pequeno e constante.

3. Fala abertamente em casa. Se tens companheiro, a conversa sobre dinheiro e tarefas é essencial para o bom funcionamento do lar. Define o que cada um faz, em vez de assumires tudo por defeito. Se o teu parceiro está sem trabalho, podem combinar que ele assume mais tarefas domésticas enquanto procura emprego, para equilibrar a carga.

4. Investe na tua literacia financeira. Um estudo da Mastercard mostra que 55% das portuguesas consideram os seus conhecimentos financeiros muito básicos ou nulos, e que 62% sentem ter menos independência financeira do que os homens. Não precisas de ser especialista, mas aprender o básico sobre poupança, crédito e reforma muda a forma como tomas decisões.

5. Pede e aceita ajuda. Isso inclui família, amigas e apoios do Estado. Informa-te na Segurança Social sobre prestações a que possas ter direito. Delegar, comprar tempo (uma refeição feita, uma hora de ajuda) ou dizer não a compromissos pode ser aquilo que precisas para reduzir a pressão que recai sobre ti.

E quanto à saúde mental?

O sacrifício constante tem um custo demasiado real. Sentir cansaço, irritabilidade, insónia ou ansiedade é uma resposta humana a uma sobrecarga e, portanto, é importante cuidares de ti própria. Reserva tempo para ti, mesmo que sejam 20 minutos por dia, e não o trates como um luxo. Se sentires que não consegues parar de te preocupar ou que perdeste o interesse nas coisas de que gostavas, procura o teu médico de família ou um psicólogo. Pedir apoio profissional faz parte de cuidar de quem cuida.

Em resumo

Sustentar uma família exige força, e muitas mulheres fazem-no sem reconhecimento. Isso não significa que tenhas de o fazer sozinha, nem que tenhas de aguentar tudo em silêncio. Organiza os números, protege-te com uma reserva, partilha o trabalho que puderes e cuida de ti. Lembra-te que és o alicerce da tua casa, e que um alicerce precisa também de ser cuidado.

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