Investimento

Porque é que a literacia financeira no feminino é importante?

Porque é que a educação financeira feminina é urgente em Portugal? Descobre os números, as causas e os passos práticos para as mulheres tomarem as rédeas do seu dinheiro.

caderno, calculadora e dinheiro

Quem gere o dinheiro?

Há uma pergunta simples que raramente se faz em voz alta: quem, na tua família, decide como o dinheiro é gerido a longo prazo? Em muitos lares portugueses, a resposta ainda tende a excluir as mulheres das decisões financeiras mais importantes, não por falta de capacidade destas, mas por falta de oportunidade, de tempo e, muitas vezes, de confiança. E essa lacuna tem um nome: a diferença de literacia financeira entre homens e mulheres.

Um problema bem documentado

Os dados não deixam margem para dúvidas. De acordo com o quarto Inquérito à Literacia Financeira do Banco de Portugal, as mulheres portuguesas apresentam níveis de conhecimentos financeiros inferiores aos dos homens, sendo este um dos fatores, a par da escolaridade e do rendimento, que mais explica os défices de literacia financeira no país.

O estudo mostra ainda que, embora Portugal esteja próximo da média da área do euro no indicador global da OCDE, fica claramente abaixo no domínio específico dos conhecimentos financeiros, e é precisamente aí que a diferença entre géneros mais se acentua, segundo a análise divulgada pelo Banco de Portugal no seu Boletim Económico.

Um estudo mais recente, que analisou uma amostra de 679 participantes entre os 18 e os 70 anos, chegou a uma conclusão semelhante: as mulheres apresentam menores conhecimentos financeiros, embora adotem, em compensação, comportamentos mais cautelosos e consistentes com uma gestão prudente dos recursos. Ou seja: sabem menos em teoria, mas quando gerem o que têm, fazem-no com cuidado. É um ponto de partida importante, que nos mostra que o problema não é falta de responsabilidade, mas falta de acesso ao conhecimento.

A nível europeu, o retrato repete-se. O inquérito "Mulheres e Finanças" da Mastercard, realizado em doze mercados europeus, incluindo Portugal, revela que mais de metade das mulheres inquiridas (55%) considera ter poucos conhecimentos financeiros, sobretudo sobre investimentos (59%), tecnologia e aplicações bancárias (34%), impostos (27%) e crédito à habitação (18%). As razões apontadas pelas próprias mulheres são reveladoras: trabalho não remunerado de cuidado a crianças e idosos, decisão de serem mães a tempo inteiro, dependência financeira de outra pessoa e salários mais baixos do que os dos homens.

Porque é que isto é importante?

A falta de educação financeira não é um problema abstrato. Na verdade, tem um preço muito real, e esse preço agrava-se com a idade. A diferença salarial entre homens e mulheres na União Europeia foi de cerca de 12% em 2023, mas essa disparidade transforma-se numa fenda ainda maior na reforma. Segundo dados da OCDE, o chamado gender pension gap situava-se nos 23% em 2024, o que significa que, por cada euro recebido por um homem em pensão, uma mulher recebe, em média, apenas 77 cêntimos.

Em Portugal, a situação tem vindo a melhorar de forma notável: em 2007 a diferença entre pensões era de 35,6%, e em 2024 desceu para os 23,2%, uma das maiores reduções registadas na Europa. Ainda assim, o fosso mantém-se, sendo explicado, em larga medida, por carreiras mais interrompidas (licenças de maternidade, trabalho a tempo parcial, pausas para cuidar de familiares) e por uma menor participação em produtos de poupança e investimento de longo prazo. A Eurostat confirma que, em 2024, o gap médio de pensão por género na UE rondava os 24,5%, com países como o Luxemburgo, a Holanda e a Áustria a registarem diferenças acima dos 35%.

Este ciclo de menor literacia financeira, menos investimento, menos poupança, e pensões mais baixas não se quebra sozinho. Quebra-se com informação, com prática e, sobretudo, com a criação de espaços onde as mulheres se sintam à vontade para perguntar, errar e aprender sobre dinheiro sem julgamento. Essa é uma das minhas missões.

De onde vem a desigualdade?

Não é uma questão de menor capacidade por parte das mulheres, é algo estrutural. Desde cedo, muitas raparigas crescem em contextos onde as conversas sobre dinheiro (onde se fala de coisas como investimentos, crédito, e poupança de longo prazo) são dirigidas maioritariamente aos rapazes, se é que estas coisas são discutidas. Depois, ao longo da vida adulta, entram fatores como a maternidade, o trabalho a tempo parcial (frequentemente assumido por mulheres para conciliar com cuidados familiares) e, em muitos casos, a delegação implícita da gestão financeira do casal no parceiro.

A Comissão Europeia identificou esta necessidade a nível nacional: a Estratégia de Literacia Financeira Digital para Portugal, desenvolvida com o apoio da Direção-Geral de Apoio às Reformas Estruturais, tem como objetivo capacitar a população portuguesa para usar serviços financeiros digitais com segurança e reduzir a exclusão financeira, um objetivo que só será cumprido se as mulheres, que partem de um patamar mais baixo, forem uma prioridade explícita.

A mudança pode começar aqui

Os benefícios de uma maior literacia financeira não são apenas individuais, são coletivos. Mulheres com conhecimentos financeiros tendem a negociar melhores condições salariais, a planear a reforma com mais antecedência, a investir em vez de deixar poupanças paradas, e a sair (ou nunca entrar) em situações de dependência financeira que as tornam vulneráveis, inclusive em relações abusivas.

Também transmitem esse conhecimento aos filhos, quebrando o ciclo intergeracional de baixa literacia financeira que a investigação tem vindo a documentar.

E o melhor: não é preciso um MBA em finanças para mudar de rumo. Alguns passos simples fazem uma diferença real:

  • Conhece o teu orçamento real. Sabe exatamente quanto entra, quanto sai e para onde vai o dinheiro todos os meses.
  • Aprende sobre investimento aos poucos. Não é preciso começar por produtos complexos; um simples certificado de aforro ou um fundo indexado já é um ponto de partida sólido.
  • Negoceia o teu salário. Pesquisa o que é justo para a tua função e não tenhas receio de pedir mais.
  • Planeia a reforma cedo. Mesmo que os valores pareçam pequenos no início, o efeito dos juros compostos ao longo de décadas é significativo.
  • Procura formação de confiança, seja através do Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal, de cursos online ou de comunidades de mulheres focadas em finanças.

Concluindo

A educação financeira feminina é uma ferramenta de autonomia essencial. Cada mulher que aprende a gerir o seu dinheiro com confiança está, ao mesmo tempo, a fechar um pouco mais o fosso das pensões, a proteger-se de dependências indesejadas e a abrir caminho para que a próxima geração de mulheres cresça a falar de dinheiro com a mesma naturalidade com que fala de qualquer outro assunto. O primeiro passo é simples: começar a olhar para as contas sem medo.

Aprende Mais

Outros artigos que te podem interessar

Ver todos
família reunida em torno de uma mesa com documentos
Poupança
Planeamento sucessório: não adies esta conversa
Descobre porque é que o planeamento sucessório é hoje uma prioridade financeira feminina e como começar.09 de setembro
calculadora, moedas, lápis e bloco de notas
Poupança
Orçamento reverso: o método que te faz poupar sem esforço
Descobre o método do orçamento reverso, a técnica de poupança validada pela ciência comportamental que inverte a lógica tradicional.09 de setembro
mulher a olhar para carteira vazia
Poupança
9 passos práticos para recuperar o controlo das tuas finanças
Ficaste sem dinheiro este mês? Descobre 9 passos práticos para organizar as tuas contas, aliviar o stress financeiro e recomeçar com mais confiança.09 de setembro
Cookie

Cookies

O Finanças no Feminino (e parceiros) utiliza cookies para coletar informação sobre ti para propósitos funcionais e marketing estatístico. Podes não dar o teu consentimento para certos propósitos selecionando uma opção nas preferências de cookies, e podes retirar o teu consentimento a qualquer altura.