Investimento

O teu guia definitivo para ações com dividendos

O guia prático sobre ações com dividendos para mulheres: como funcionam, o que os estudos dizem sobre o desempenho das investidoras e como começar em Portugal.

calculadora com gráficos no fundo

Investir na bolsa não é só para quem tem muito

Investir em bolsa deixou de ser um clube fechado, e ainda bem. Mesmo assim, os números mostram que as mulheres continuam a ser minoria entre os investidores em Portugal: segundo um estudo da corretora XTB citado pelo Jornal Económico, as principais barreiras que as mulheres apontam para não investir são a falta de capital, o receio de perder dinheiro e a falta de conhecimentos financeiros.

É precisamente para desmontar essa última barreira que este guia existe: quero-te explicar, de forma simples, o que são ações com dividendos e como podes começar a investir nelas com confiança.

O que são as ações com dividendos?

Quando compras uma ação, tornas-te sócia (ainda que muito pequena) dessa empresa. Algumas empresas, sobretudo as mais maduras e lucrativas, optam por distribuir parte dos seus lucros aos acionistas, em vez de reinvestir tudo no negócio. Esse pagamento chama-se dividendo e costuma ser distribuído de forma trimestral, semestral ou anual, consoante a empresa.

As ações com dividendos são, por isso, particularmente populares entre quem procura um rendimento passivo e regular, complementar ao salário ou à reforma, sem ter de vender as suas ações para obter esse dinheiro.

Porque é que isto é importante?

Existem razões estruturais que tornam este assunto especialmente relevante para as mulheres. De acordo com um artigo do Jornal Económico sobre gestão de património, estima-se que em 2025 as mulheres controlassem cerca de 35% de todo o património privado investível a nível mundial, uma fatia que tem crescido mais depressa do que a dos homens, muito por via de heranças, divórcios e do facto de, em média, viverem mais tempo.

Ao mesmo tempo, várias mulheres continuam a ficar de fora das decisões de investimento, um hábito herdado de gerações anteriores em que essa tarefa era tipicamente "coisa de homem". O resultado é um enorme potencial por explorar: mais património nas mãos das mulheres, mas ainda pouca participação ativa na gestão desse dinheiro.

E há um dado que vale a pena reter: quando investem, as mulheres tendem a sair-se muito bem. Um estudo da Warwick Business School, que acompanhou 2.800 investidores durante três anos, concluiu que as carteiras geridas por mulheres renderam, em média, 1,8% ao ano mais do que as dos homens, além de terem batido o próprio índice FTSE100 de Londres. Um outro estudo da gestora Fidelity, que analisou milhões de contas de clientes ao longo de dez anos, chegou a uma conclusão semelhante: as mulheres superaram os homens em cerca de 0,4 pontos percentuais de retorno anual.

A explicação não tem a ver com sorte. Os mesmos estudos apontam que as mulheres negoceiam com menos frequência (menos 45% de operações, segundo a Warwick), mantêm os investimentos durante mais tempo e evitam apostas especulativas de curto prazo. Ora, esta é exatamente a filosofia por trás do investimento em dividendos: escolher empresas sólidas e manter as ações a longo prazo, deixando o tempo e os lucros distribuídos trabalharem a teu favor.

Como escolher ações com dividendos

Nem toda a ação que paga um dividendo elevado é uma boa escolha. Antes de investir, vale a pena olhar para alguns indicadores:

  • Dividend yield (rendimento do dividendo): é a percentagem que o dividendo anual representa face ao preço da ação. Um yield muito alto (acima de 8-9%) pode ser um sinal de alerta, e não uma pechincha, porque muitas vezes significa que o preço da ação caiu por a empresa estar em dificuldades.
  • Histórico de pagamentos: empresas que pagam e aumentam dividendos de forma consistente há vários anos tendem a ser mais estáveis do que as que distribuem valores irregulares.
  • Payout ratio: mostra que percentagem do lucro é distribuída aos acionistas. Um rácio demasiado próximo dos 100% pode não deixar margem para a empresa investir no próprio crescimento.
  • Solidez do setor: setores como energia, banca, distribuição e telecomunicações costumam ter empresas mais previsíveis e com maior tradição de pagar dividendos.

Em Portugal, a Euronext Lisbon reúne empresas conhecidas do dia-a-dia com histórico de distribuição de dividendos, como a EDP, a Galp, a Jerónimo Martins, a NOS ou o BCP, que juntas representam grande parte do índice PSI.

E em termos fiscais?

Em Portugal, os dividendos são tributados como rendimentos de capitais (Categoria E). Segundo o guia fiscal da PwC Portugal e informação da Rankia sobre a declaração de dividendos no IRS, os dividendos pagos por empresas com sede em Portugal estão, regra geral, sujeitos a uma retenção na fonte de 28%, aplicada automaticamente. Se a retenção já tiver sido feita, normalmente não precisas de fazer mais nada na tua declaração de IRS, salvo se decidires optar pelo englobamento (o que só costuma compensar se a tua taxa de IRS for inferior a 28%).

Já os dividendos de ações estrangeiras (por exemplo, americanas ou europeias) têm de ser sempre declarados no Anexo J do Modelo 3, mesmo que já tenha havido retenção no país de origem, para poderes beneficiar de crédito por dupla tributação.

Se preferires não lidar com a burocracia dos dividendos, uma alternativa é investir em ETFs de acumulação, que reinvestem automaticamente os rendimentos e só geram imposto no momento da venda.

Como sempre, isto é algo geral, e deves sempre consultar um profissional qualificado para que ele possa acompanhar a tua situação específica de perto e responder a quaisquer dúvidas fiscais que tenhas.

Como é que podes começar?

  • Define o teu objetivo: rendimento passivo mensal, complemento de reforma, ou apenas fazer crescer o património a longo prazo. Isto vai influenciar que ações ou fundos faz sentido escolher.
  • Abre conta numa corretora: existem corretoras portuguesas e internacionais, com diferentes comissões e acesso a diferentes mercados (Euronext Lisboa, mercados europeus, EUA).
  • Começa com pouco e diversifica: não é preciso um grande capital para começar. É mais importante distribuir o investimento por vários setores e não concentrar tudo numa só empresa.
  • Considera ETFs de dividendos: existem fundos cotados que reúnem dezenas de empresas que pagam dividendos, reduzindo o risco.
  • Reinveste os dividendos recebidos: no início, em vez de gastares o dinheiro recebido, reinveste-o em mais ações. Isto acelera o chamado efeito de juro composto.
  • Sê paciente: os estudos mostram precisamente que a paciência e a menor frequência de negociação, caraterísticas associadas às mulheres investidoras, tendem a gerar melhores resultados a longo prazo.

Para finalizar

Investir em ações com dividendos não é sobre ficar rica da noite para o dia, é sobre construir, com consistência, uma fonte de rendimento que trabalha para ti. Os dados são claros: as mulheres já têm o perfil ideal para este tipo de investimento, contando com paciência, visão de longo prazo e prudência na escolha das empresas. O que falta, muitas vezes, é apenas dar o primeiro passo.

Se ainda te sentes insegura, começa por investir um valor pequeno, informa-te bem antes de cada decisão e vai construindo confiança à medida que aprendes. O mercado financeiro tem espaço para ti, e os números mostram que tens tudo para te sair muito bem nele.

Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro ou fiscal personalizado. Antes de investir, consulta um profissional certificado.

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